Você é péssimo em debater política por 6 motivos diferentes

Mestre na arte dos relacionamentos, Dale Carnegie mostra como falhamos terrivelmente em todos os aspectos de qualquer discussão.

“A razão por que os rios e os mares recebem a homenagem de centenas de córregos das montanhas é que eles se acham abaixo dos últimos. Deste modo podem reinar sobre todos os córregos das montanhas. Por isso, o sábio, desejando pairar acima dos homens, coloca-se abaixo deles; desejando estar adiante deles, coloca-se atrás dos mesmos. Assim, não obstante o seu posto ser acima dos homens, eles não sentem o seu peso; apesar do seu lugar ser adiante deles, não consideram isto uma ofensa” — Lao-Tsé

Já tive um forte preconceito com livros de auto-ajuda. “Coisa de gente mal resolvida, que tem preguiça de ler livros de verdade”, pensava, arrogantemente. É um jeito fácil de pensar e de louvar o próprio ego. Aliás, usar a força para passar por cima dos outros em qualquer aspecto é uma demonstração cabal de fraqueza — como na metáfora genial de Darth Vader. Enfim, eu sou jornalista e tenho uma tendência mórbida a me isolar das pessoas; esse último traço veio de uma depressão clínica. O primeiro foi apenas uma má escolha [brinks]. E essas duas coisas não casam muito bem. Preciso de amigos, de contatos, de pessoas que me permitam contar suas histórias.

Como prefiro livros a pessoas — e claramente precisava de ajuda — fui atrás da obra de referência na área de fazer amigos. E o título não poderia ser mais claro: “Como fazer amigos e influenciar pessoas”. Afora o título promissor [e que vende muito bem], a capa é repleta de garantias:

  1. Quais são as seis maneiras de fazer as pessoas gostarem de você?
  2. Quais são as doze maneiras de conquistar as pessoas a pensarem do seu modo?
  3. Quais são as nove maneiras de mudar as pessoas sem ofendê-las nem deixá-las ressentidas?

Parece um produto da imortal Organização Tabajara. “Dane-se, é isso ou um consultório”. Considerei a leitura. Para adiantar a história e entrar no assunto: abri algumas ressalvas para livros de auto-ajuda. Dale Carnegie não traz nada de novo, porém conseguiu reunir princípios sobre como manter relacionamentos produtivos com as outras pessoas, cativar amigos e fazer o mínimo possível de inimigos.

O livro foi escrito em 1936 para servir de suporte para seus treinamentos de vendas, daí sua característica de ser um “guia prático”. O segredo de sua eficácia não é complicado de entender: recorre a valores milenares como a humildade, valorização do outro, respeito, protagonismo e capacidade de reconhecer os próprios erros. Atualmente tudo isso parece mito: todo mundo já ouviu falar, mas na prática são coisas abstratas e retóricas. E aqui, finalmente, chegamos ao que interessa.

FotoDestaque_#86

Foto: Adaptado do Brasil Post

Ninguém liga muito para política. Mas todo mundo adora julgar — assim como eu faço com livros de auto-ajuda, assim como você faz com os dois candidatos presidenciáveis. É por isso que somos agraciados há 14 anos com o Big Brother e outras pérolas dos reality shows. Nos debates, as propostas são o que menos interessam; o desempenho dos candidatos é o principal item avaliado por analistas, jornalistas, colunistas e leitores. Quem bate mais forte, quem cede, quem avança, quem desmaia. O espetáculo de agressividade improfícua se estende à internet e divide amigos e até famílias. Como disse no começo do artigo, é fácil usar a força para subjugar.

“Cavalgamos furiosamente sobre os sentimentos dos outros, prosseguindo em nosso caminho, descobrindo faltas, fazendo ameaças, criticando uma criança ou um empregado diante de outros, sem mesmo considerar que ferimos a vaidade alheia”, aponta Carnegie no seu livro. Uma bofetada na alma. É exatamente isso que somos encorajados a fazer. É isso o que vemos nos debates políticos. Vivemos no meio dessa violência terrível e, como bem lembrou Augusto dos Anjos, viramos feras no meio de feras.

A finalidade do debate deixa de ser o convencimento e passa a ser um teste de força. É óbvio que quem leva um tapa na cara não vai baixar a cabeça para o agressor. Vira briga. Como, então, é possível fazer um debate construtivo, senão pela queda-de-braço? Pincei os principais tópicos do livro que mostram com somos péssimos na sutil arte do convencimento — e como melhorar. Entenda porque você, eu e muita gente [incluindo nossos presidenciáveis] são péssimos em debater.

1. Nós corremos direto para uma briga que não terá vencedores.

O que começa com ideias descamba para manchetes de jornais e sites, resultados de pesquisas de opinião duvidosas, depois para fofocas, acusações familiares e está feita a bagunça. No final, tudo é um grande desperdício de tempo e energia. Ninguém sai menos resoluto acerca da sua posição política do que entrou — na verdade sai ainda mais firme, certo de que seus argumentos foram mais inteligentes. “Um homem convencido contra a vontade conserva sempre a opinião anterior”, afirma. Discussão de Facebook é como brigar: machuca, mas depois de um tempo pegamos o jeito e não importa o quanto nos ferimos, o que vale é que o outro saiu ferido. O motivo inicial da peleja nem importa mais. É um Hatfields and McCoys.

O que fazer?

Segundo Carnegie, a única maneira de vencer uma discussão é evitando-a. Um diálogo não consiste em provar seu ponto pela força, e sim em: acolher as divergências, controlar os instintos e impulsos, ouvir o que a outra parte tem a dizer, buscar áreas de concordância, ser honesto e considerar e refletir sobre tudo o que o outro disse. “Ódio nunca termina por ódio, mas por amor”, diz uma frase atribuída a Buda.

2. Nosso ponto de partida é dizer que o outro está errado.

Esse é um jeito infalível de fazer inimigos, diz Carnegie. “Nunca comece dizendo: ‘vou provar isso ou aquilo’. Isso equivale a dizer: ‘sou mais inteligente que você . Vou dizer-lhe uma coisa ou duas e mudar sua opinião'”. Claro, isso não acontece, porque o outro vai se armar até os dentes. É um erro tático. Se já é difícil mudar a opinião dos outros, jogar uma carta que vai lhe trazer desvantagem não é nada inteligente.

O que fazer?

Sutileza é a regra. “Se deseja provar alguma coisa, não deixe que ninguém note isto”, reforça Carnegie. Faça como Sócrates: admita sua ignorância. Não é uma técnica artificial: não temos todas as informações e conhecimentos do mundo e da história. Na verdade, o que conhecemos ou julgamos conhecer é desprezível e só interessa a nós mesmos. Em vez de começar como “você está errado”, comece com “eu posso estar errado”. “Poucas pessoas são lógicas […] a maioria dos cidadãos não quer mudar suas ideias sobre religião, sobre seu corte de cabelo, sobre o comunismo, sobre seu artista de cinema favorito”, reconhece o escritor. Mas não é a paixão pelas ideias que nos fazem resistir, e sim a paixão pela nossa vaidade. Julgamos antes de compreender. O melhor que você pode fazer é reconhecer que pode estar errado e respeitar a opinião do outro. Isso lhe dará uma vantagem estratégica.

3. Nós não reconhecemos o erro.

Em vez disso, buscamos os argumentos mais estapafúrdios, as relativizações mais nonsense, as piores desculpas para mostrar que nosso erro não é bem um erro. Quando isso acontece, a outra pessoa vai notar, e vai cair em cima. Porém a “estratégia de Pedro” — negar, negar e negar — só vai enfatizar o argumento contrário, dar munição ao acusador.

O que fazer?

Dale Carnegia lembra que é mais fácil ouvir uma censura que vem dos próprios lábios do que dos de outra pessoa. E quando você o faz energicamente, desarma o oponente. Com isso, você mostra que é humano e arregimenta a simpatia das pessoas. “Existe certo grau de satisfação em se ter a coragem de admitir o próprio erro. Não apenas alivia a sensação de culpa e a atitude de defesa, como também com frequência ajuda a resolver o problema criado pelo erro”, enfatiza.

4. Nós entramos com uma postura agressiva.

Você joga os fatos na cara da outra pessoa e espera uma mudança de ideais? Sinto muito, mas sua catarse só vai lhe trazer inimigos. Mais uma vez: “as pessoas não gostam de mudar suas ideias. Elas não podem ser forçadas a concordar com você nem comigo”. Entretanto…

O que fazer?

Elas podem ser levadas a mudar de ideia se formos gentis e amistosos, “cada vez mais gentis, cada vez mais amistosos”. Citando Lincoln, Carnegie destaca: “Se quer tornar um homem adepto à sua causa, convença-o primeiro de que você é seu amigo sincero. Nisso há uma gota de mel que apanha seu coração, o qual, digam o que quiserem, é o caminho mais curto para a razão”. E não adianta fingir sinceridade.

5. Fazemos as outras pessoas divergirem de nós.

À medida em que a querela se arrasta, fica mais claro que ninguém vai concordar com o outro. Os “nãos” se acumulam nas arestas mais difíceis de limpar. Quanto mais usamos a força (ou a verve) do argumento, mais os afastamos. Uma técnica simples poderia encurtar o caminho.

O que fazer?

Faça perguntas cuja resposta será afirmativa. Em outros termos, faça a outra pessoa dizer “sim” o máximo de vezes possível. “Provoque um ‘não’ logo de saída […] e terá, então, a necessidade de toda a sabedoria e paciência de anjo para conseguir transformar essa negativa absoluta em uma afirmativa”, relata. É o método usado por Sócrates: pergunta após pergunta, o interlocutor era obrigado a concordar até chegar em um ponto onde a única saída é reconhecer que estava errado. Você nem eu somos Sócrates, mas quanto mais “sins” conseguimos, mais rápido fazemos o outro mudar de ideia.

6. Nós tentamos ‘colonizar’ outras pessoas.

Ninguém gosta de ser colonizado. Como dizia Saramago, “aprendi a não tentar convencer ninguém. O trabalho de convencer é uma falta de respeito, é uma tentativa de colonização do outro”. A reação natural é: “sai daqui, imbecil. Quem manda aqui sou eu”. Em vez de sugerir, tentamos lobotomizar os outros e empurrar o que nós queremos ou achamos certo. É proselitismo amador. Com isso, você se coloca acima dos outros, e ninguém gosta de ser jogado para baixo. “Nenhum homem gosta de sentir que lhe estão vendendo algo ou dizendo-lhe para fazer determinada coisa. Preferimos sentir que estamos comprando por nossa própria vontade ou agindo de acordo com nossas próprias ideias”, diz Carnegie.

O que fazer?

Não jogue sua ideia, mas crie sugestões para que a ideia desperte na outra pessoa. Dessa forma é muito mais fácil conseguir colaboração e — no caso dos debates políticos — dá mais uma chance de trazer a pessoa para o seu lado. Por exemplo, pergunte: “na sua opinião exclusiva, não do seu candidato, quais seriam as cinco melhores propostas para alavancar o crescimento do Brasil, considerando o cenário externo?”. Ou algo mais simples, como: “o que o próximo Ministro da Fazenda deveria fazer?”. E, por aí, conduza a discussão.

É claro que nada disso é garantia de que você vai se dar bem em qualquer bate-boca político de mesa de bar ou num post floodado no Facebook. Mas, esteja certo: com a postura arrogante que você tem agora, só vai conseguir boas brigas. Esse é o caminho. Do contrário, você vai acabar como os cidadãos no vídeo abaixo, que só repetem discursos e professam uma ira instilada pelas coordenações de campanha.

Para não perder nenhum post, assine nossa newsletter na barra da lateral e receba uma notificação no seu email quando houver postagem no Administradores Y.


EberFreitas_120x120

Eber Freitas

Fundador da Editora Nômade, é jornalista do Portal Administradores, maior portal de Administração do país. Além de gostar de ler pra caramba, é músico tocando baixo e violão.

 

Anúncios

Um comentário sobre “Você é péssimo em debater política por 6 motivos diferentes

  1. Vera Wanderley disse:

    Para argumentar é preciso refletir…refletir é pensar, raciocinar…pensar e raciocinar demanda tempo e esforço (buscando conhecer nós mesmos, o outro e o assunto). Para alguns…usar do tempo para refletir, é ‘perda de tempo’…esforçar-se ‘dá muito trabalho’. O que as pessoas esquecem é que brigar também exige tempo (com certeza perdido!) e um grande esforço (que podemos até desmaiar…!). Por isso, se é para ‘perder tempo’ e ‘ter trabalho’, pelo menos que o façamos de forma nobre…REFLETINDO para argumentar.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s