A criatividade não exige métodos

Para quase tudo na vida há método: para gestão, para criar e seguir processos, até para aprender a chutar uma bola! Porém quase tudo que se cria a partir de métodos são palpáveis. E essa é a grande questão, a ação decorrida a partir da “criatividade” geralmente não é palpável; seu resultado possivelmente será, mas a ação não.

Em algumas das conversas que tive com um dos meus atuais professores, percebi que os métodos às vezes não contribuem, quando engessados, para uma inovação real, para uma real evolução. O mesmo me reclamou que a academia, infelizmente, anda abarrotada de comodistas e “donos” de verdades absolutas. Nesses últimos dias andei refletindo sobre isso, e me veio logo a lembrança de uma citação de Rubem Alves:

… Uma coisa é certa: a história não me chega quando estou trabalhando, quando estou procurando. E é assim que acontece com a poesia, a música, a literatura, a pintura e inclusive a ciência. As boas ideias não são pescadas nas redes metodológicas. ‘Não há método para se ter boas ideias’. Se houvesse método para se ter ideias boas, bastaria aplicar o método que seríamos inteligentes. Frequentemente o resultado do uso do método é o posto da inteligência. O tipo está lançando suas redes, as redes voltam sempre vazias, e ele não se dá conta dos pássaros que se assentaram em seu ombro. A obsessão com o método entope o caminho das boas ideias.” (Rubem Alves, Entre a ciência e a sapiência).

Entretanto há esperança para quem busca se tornar cada vez mais criativo. E retomo parte do post anterior, a questão não é buscar métodos e sim favorecer que as boas ideias se completem e criem novas conexões. Uma das minhas maiores crenças para o futuro da educação e, consequentemente, de uma sociedade passa a partir desse ponto. Devemos criar, e proporcionar, ambientes favoráveis, pois essa é uma das ferramentas com maior potencial para obtenção de “insights”.

Um pouco de história para correlacionar o que estou tentando explicar: Idade das Trevas ou apenas Idade Média? Pois é, boa parte da Idade Média foi chamada de Idade das Trevas pelos renascentistas, os quais foram inspirados pelas culturas grega e romana e deram início ao Iluminismo (período pós Idade Média), pois os mesmos acreditavam que tal idade teve seu desenvolvimento limitado e fortemente oprimido pelos dogmas da Igreja Católica. Verdade ou não, a idade das trevas foi um período onde o centro das explicações eram as vontades Divinas. Os renascentistas não desacreditavam em Deus, apenas queriam colocar o ser humano no centro das artes e do conhecimento, observando e compreendendo o mundo de forma diferente.

O conhecimento estava muito ligado a religiosidade na idade média por um motivo simples, os principais autores do conhecimento e formadores de opinião da época faziam parte da Igreja Católica, em sua maioria clérigos. A base do conhecimento da teologia era tão forte à época que certa vez Santo Agostinho disse: “Discutir a natureza e a posição da Terra não nos auxilia em nossa esperança de vida futura”. O interesse da época era em conhecer o mundo de Deus e não da natureza, por isso a vida intelectual da época se concentrava nos mosteiros e não era exposta a sociedade como um todo.

Pois bem, os renascentistas queriam colocar o ser humano no centro de todas as coisas. E para isso teriam que criar lógicas que contrastassem com os conhecimentos Divinos. O primeiro passo para isso foi o questionamento. Nessa época surgiram muitos autores de extrema relevância para a humanidade como Voltaire, Descartes e Newton. Aliás, Descartes foi fundamental para o começo do Iluminismo, pois ele defendia o uso da razão e da racionalidade para responder aos fenômenos que até então eram atribuídos a vontade Divina. Descartes certa vez até colocou a prova sua própria existência. Dessa dúvida surgiu uma das frases mais celebres da história: “Penso, logo existo”.

Entender essa parte da história, como Iluminismo e Idade Média, é bastante relevante para entender como surgiu o pensamento criativo. Um dos fatores que proporcionaram a efervescência das teorias da época, além de fator fundamental para a Revolução Francesa, foram os cafés da época. O primeiro café Francês, “Le Procope”, reunia corriqueiramente nada mais nada menos que Voltaire, Rousseau e Diderot. Por conta disso o espaço é tido como o berço da primeira enciclopédia moderna.

Ora, por que os cafés tiveram tanta importância?

Naquela época, além de servir, logicamente, café e chá, a função dos cafés era reunir pensadores, formadores de opinião, aristocratas e burgueses para conversar, jogar xadrez, ouvir música e fumar. Pensemos: se há um local onde a nata intelectual da sociedade da época está reunida para se entreter, logicamente esse é um ponto onde a troca de ideias é natural, onde proporcionava o surgimento do que hoje chamamos de “insights”.

Dessa forma, segue minha dica: frequentem locais ondem possam conversar e interagir com as pessoas, de preferência pessoalmente. Não fazemos ideia de quantas “half-ideas” podemos acumular ao longo da vida, e esses ambientes funcionarão, além de ouvir novas ideias, como catalizador; um verdadeiro catalizador de inovações.


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Vinícius Machado

Graduando em Administração pela UFPB, se dá muito bem na parte de Estratégia e Gestão de Pessoas. Gaúcho de sangue, adora um churrasco, chimarrão e sempre que pode dá aquele rolê de patins.

 

 

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Um comentário sobre “A criatividade não exige métodos

  1. Cassio Pereira dos Santos disse:

    Texto bem interessante Vinícius! Parabéns! Vamos criar ambientes favoráveis, unir universitários de diversos cursos e jovens visionários nos cafés da nossa cidade? #ProporcionarInsights.

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